No final da década de 1940, a poliomelite, também conhecida como pólio ou paralisia infantil, deixava cerca de 35 mil pessoas paralíticas todos os anos nos Estados Unidos. Assim, em busca de solucionar esse problema, nos anos 1950, uma tragédia que ficaria conhecida como "Incidente Cutter" foi o que tornou as vacinas de hoje mais seguras.

Quando a doença ainda estava em circulação, a média de casos anuais era entre 13 mil e 20 mil casos, segundo informações do CDC ("Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA", em português). Por isso, os pais precisavam trancar seus filhos em casa durante o verão para se proteger na época que o contágio era maior.

O erro aconteceu na parte de distribuição da vacina

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De acordo com Michael Kinch, autor do livro Entre a esperança e o medo ("Between hope and fear", em inglês), que conta a história das vacinas, muito da rotina da época pode se parecer com a dos dias de hoje. "As pessoas foram colocadas em quarentena, assim como está acontecendo agora, piscinas e cinemas eram fechados, as crianças não saíam para jogar bola, não brincavam com os amigos", afirma Kinch. Por isso, todos comemoraram quando uma nova vacina chegou.

Mas, após um mês do lançamento da vacina, a imunização precisou ser interrompida por alguns meses em um episódio que ficaria conhecido como "Incidente Cutter". Após um amplo teste clínico realizado em 1954, a vacina foi aprovada iniciada a produção no ano seguinte. Com isso, seis laboratórios foram licenciados para produção da vacina. Dito isso, ainda que a vacina tivesse uma eficácia de 80% a 90%, o problema se deu durante a produção da vacina.

Entre os laboratórios produtores da vacina, estava o Cutter Laboratories, na Califórnia. Logo, a grande tragédia se deu através da produção de 380 mil doses defeituosas da vacina. Logo, ao invés de serem imunizantes, o lote da vacina continham cepas ativas do vírus.

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O que havia acontecido com as vacinas?

Uma vez que o erro foi descoberto, a imunização parou e mais de 260 casos de pólio foram confirmados. Em todo caso, o acidente foi fundamental para tornar as vacinas de hoje mais seguras, melhorando os sistemas de fabricação e regulamentação governamental no que diz respeita a sua produção.

Para Paul Offit, médico e escritor, o erro se deu a partir de uma série de neglicências na produção da vacina. "Ninguém demonstrou mais desdém pelas teorias de desativação de Salk do que os laboratórios Cutter. Salk tinha um procedimento para desativar o vírus. Mas os Cutter não sabiam se estavam seguindo as teorias dele ou não. Acho que eles não tinham experiência interna para fazer isso, embora outros laboratórios tivessem", afirma o escritor. "Os Cutter fizeram muitas coisas erradas e tampouco tinham a experiência interna que outros laboratórios tinham", completa.

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Após o incidente, um órgão especializado em monitorar a produção das vacinas foi criada, essa era a Divisão de Padrões Biológicos (DBS, em inglês) e esse foi o primeiro passo para tornar as vacinas de hoje mais seguras. Hoje, o DBS é o Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica e faz parte da Agência Americana de Drogas e Alimentos (FDA, em inglês). "Foram desenvolvidos procedimentos melhores para filtração, armazenamento e testes de segurança, e uma vacina segura contra a poliomielite foi fabricada em poucos meses", afirma Offit.

Atualmente, "a vacina contra Covid-19 não poderia chegar perto do que aconteceu com aquela vacina. A cepa usada para a vacina contra pólio era a mais virulenta", afirma Offit. Em todo caso, seguimos aprendendo com os erros do passado. "As estratégias que estamos usando não são perigosas. Certamente haverá uma curva de aprendizado e um custo humano, mas não imagino que chegue perto do custo humano que tivemos na década de 1950", completa.

Publicado em: 26/10/20 12h30